É uma das perguntas que mais ouço no consultório, geralmente com o laudo do cateterismo na mão: "achou uma obstrução de 70% — vou precisar de stent?"

A resposta honesta é: depende do cenário. E a primeira pergunta não é sobre a porcentagem. É sobre o quadro clínico.

Existe uma diferença fundamental entre uma síndrome coronariana aguda — infarto e angina instável — e a doença coronariana estável. São situações com urgência, lógica e desfecho diferentes. Tratá-las como se fossem a mesma coisa é a origem de boa parte da confusão.

Primeiro: é urgência ou é doença estável?

Na síndrome coronariana aguda, a placa de gordura sofreu uma ruptura e um coágulo se formou sobre ela, fechando ou quase fechando a artéria de forma abrupta. O músculo cardíaco começa a morrer. Aqui não há tempo para discussão: quando o cateterismo identifica uma lesão culpada grave e tecnicamente tratável, a angioplastia com stent é indicada para restabelecer o fluxo.

Nesse cenário, a frase "nem toda obstrução precisa de stent" simplesmente não se aplica. É outro contexto.

Dor no peito em repouso, persistente ou em piora exige avaliação imediata. Na suspeita de infarto, ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto-socorro mais próximo. Não espere para ver se melhora.

Escrevi em detalhe sobre o que fazer diante dessa suspeita na página de infarto agudo do miocárdio e no artigo sobre dor no peito.

Na doença coronariana estável é que a conversa fica interessante — e é onde mora o mal-entendido.

Na doença estável, a porcentagem não decide sozinha

A angiografia mostra a sombra do contraste dentro da artéria. Ela diz quanto o vaso estreitou naquele ponto. O que ela não diz é se aquele estreitamento está de fato limitando o sangue que chega ao músculo.

E é isso que importa. Uma lesão de 70% num vaso fino, irrigando uma área pequena, pode não causar isquemia nenhuma. Uma lesão de 60% num vaso calibroso, irrigando um território grande, pode causar isquemia importante.

Tela do estudo de FFR durante procedimento, mostrando a comparação de pressão antes e depois da lesão

Por isso existem ferramentas que medem o fluxo dentro da própria artéria. No FFR (reserva de fluxo fracionada), um fio-guia com sensor de pressão atravessa a lesão e compara a pressão antes dela com a pressão depois. Abaixo de 0,80, a obstrução está limitando o fluxo e o tratamento se justifica. Acima, o melhor caminho costuma ser clínico.

O iFR faz uma avaliação semelhante sem precisar de medicação vasodilatadora. E o ultrassom intracoronário (IVUS) mede o diâmetro real do vaso e a carga de placa, o que ajuda tanto na decisão quanto na escolha do stent.

Essa é a diferença entre tratar uma imagem e tratar um paciente.

O que a ciência mostrou

Essa não é uma opinião isolada — é o resultado de dois grandes estudos que mudaram a prática.

O COURAGE, publicado em 2007, comparou tratamento clínico otimizado com tratamento clínico mais angioplastia em pacientes com doença coronariana estável. Não houve diferença em mortalidade ou infarto entre os grupos.

O ISCHEMIA, publicado em 2020, foi além: selecionou pacientes com isquemia moderada a grave comprovada em exame — justamente os que se imaginava terem mais a ganhar — e comparou estratégia invasiva com estratégia conservadora. De novo, sem diferença em mortalidade ou infarto ao longo do seguimento.

O que a angioplastia mostrou consistentemente foi alívio de sintomas: quem tinha angina limitante melhorou mais, e melhorou antes.

A leitura correta desses estudos não é "stent não serve para nada". É mais específica e mais útil: na doença estável, o stent trata sintoma e situações de risco, não a expectativa de vida por si só. Quem muda o prognóstico, nesse cenário, é o tratamento clínico bem feito.

O que realmente muda o seu futuro na doença estável

Aqui está a parte que costuma receber menos atenção do que merece, e que é a mais importante:

  • Controle do colesterol LDL, com meta definida conforme o risco de cada pessoa
  • Controle da pressão arterial
  • Controle do diabetes
  • Parar de fumar — nenhuma intervenção isolada rende tanto
  • Atividade física regular e cuidado com o peso
  • Medicação antiplaquetária e demais fármacos conforme a indicação

A aterosclerose é uma doença difusa de todo o sistema arterial. O stent trata um ponto de uma artéria. As placas continuam existindo nos outros segmentos — e é o tratamento clínico que age sobre todas elas ao mesmo tempo.

Então quando a angioplastia é indicada na doença estável?

Em três situações principais:

  1. Para aliviar sintomas que persistem apesar do tratamento clínico bem conduzido
  2. Para corrigir lesões que comprovadamente causam isquemia, demonstrada por exame funcional ou por medida intracoronária
  3. Em anatomias que oferecem risco, como lesões de tronco de coronária esquerda ou padrões específicos de doença

Ilustração mostrando o balão comprimindo a placa e o stent sustentando a artéria aberta

Quando a doença envolve múltiplos vasos e a anatomia é complexa, a decisão deixa de ser de uma pessoa só. É o que chamamos de Heart Team: cardiologista clínico, cardiologista intervencionista e cirurgião cardíaco discutem o caso e definem juntos se o melhor caminho é a angioplastia ou a cirurgia de revascularização com pontes.

Vale registrar que esse limite tem se movido. Com os materiais atuais e a orientação por imagem intravascular, casos que há alguns anos seguiam automaticamente para cirurgia hoje são resolvidos por cateter. Escrevi sobre isso no artigo de mitos sobre o stent.


Se você recebeu um laudo com uma obstrução e saiu de lá achando que "não fazer nada" seria descaso, vale reler esta frase: não colocar stent numa lesão que não causa isquemia não é deixar de tratar. É tratar corretamente.

O que não pode acontecer é o contrário — confundir uma urgência com uma situação eletiva. Infarto e angina instável não esperam.

Leve seus exames para avaliação e pergunte qual é o seu cenário. A resposta muda tudo.