Se você ou alguém da sua família recebeu o diagnóstico de estenose aórtica, o estreitamento da válvula principal do coração, é muito provável que a pergunta seguinte tenha sido: "operar ou fazer a TAVI?". Em outubro de 2026, durante o Congresso Brasileiro de Cardiologia, foi apresentada a nova Diretriz Brasileira de Valvopatias, da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Ela traz uma orientação por faixa de idade que ajuda muito a conversar com a equipe. Também deixa claro o que não cabe numa regra de idade.

Neste artigo explicamos, em linguagem simples, o que a diretriz propõe, de onde vêm essas faixas e por que a decisão final continua sendo individual.

Uma pausa para entender os dois tratamentos

A estenose aórtica acontece quando a válvula aórtica, a "porta de saída" do coração, endurece e abre cada vez menos. Se você quer entender melhor a doença em si, e por que ela pode existir sem sintomas, leia nosso artigo Estenose aórtica grave: dá para esperar?.

Quando chega a hora de tratar, existem dois caminhos principais:

  • Cirurgia de troca valvar: o cirurgião abre o tórax, retira a válvula doente e coloca uma prótese no lugar. É o tratamento com mais tempo de acompanhamento na história.
  • TAVI (sigla em inglês para implante de válvula aórtica por cateter): uma prótese dobrada é levada por uma artéria, geralmente da virilha, até o coração, onde é aberta dentro da válvula doente. Não é preciso abrir o peito. Se quiser ver como funciona, veja nossa página sobre a TAVI.

As duas opções são consideradas eficazes e seguras em pessoas bem selecionadas. A pergunta é: para quem cada uma costuma ser mais indicada?

O que a nova diretriz propõe por idade

Para pacientes com estenose aórtica que têm sintomas (ou outros sinais de que a doença já está cobrando seu preço) e risco cirúrgico baixo, o resumo divulgado da diretriz traz esta lógica:

  • Antes dos 70 anos: a cirurgia é a opção preferida.
  • Entre 70 e 80 anos: cirurgia e TAVI são ambas recomendadas, e a escolha se faz caso a caso.
  • Acima dos 80 anos: a TAVI é a opção preferida.

Em quem tem risco cirúrgico intermediário, alto ou proibitivo, a TAVI recebe recomendação forte.

Por que a cautela antes dos 70? Por dois motivos que a própria diretriz aponta: pessoas mais jovens estiveram menos representadas nos grandes estudos, e ainda faltam dados sobre quanto tempo as próteses de TAVI duram e sobre a necessidade de uma nova intervenção anos depois. Quem tem 60 anos pode viver mais 25 ou 30, e a prótese precisa acompanhar esse tempo.

Um ponto importante: a diretriz não estabelece uma preferência automática pela TAVI a partir dos 70 anos. A faixa entre 70 e 80 é justamente a zona em que as duas opções são boas e a decisão depende de outras coisas.

Este texto resume o que foi divulgado sobre a diretriz e não substitui a leitura do documento completo nem a avaliação individual. Nenhuma tabela de idade decide o seu caso.

O que pesa além da idade

A idade é um ponto de partida, não uma sentença. A diretriz coloca no centro da decisão o Heart Team, a equipe do coração, formada por cardiologista clínico, cardiologista intervencionista, cirurgião cardíaco, especialista em imagem e, quando necessário, outros profissionais. Entre os fatores que a equipe pesa estão:

  • Anatomia da válvula e dos vasos. Alguns formatos de válvula e de artérias favorecem um método ou outro, e isso se vê em exames de imagem, como a tomografia.
  • Fragilidade. Duas pessoas de 78 anos podem ser muito diferentes: uma caminha todos os dias e outra tem dificuldade para sair da cadeira. Isso influencia a recuperação.
  • Outras doenças. Problemas nos pulmões, nos rins ou nas artérias coronárias mudam o risco de cada caminho. Quando há obstruções coronárias associadas, a ordem do tratamento também entra na conversa. Falamos disso no artigo TAVI e artérias entupidas: o que tratar primeiro?.
  • Durabilidade e futuro. Uma pessoa mais jovem precisa pensar no que poderá ser feito se a prótese um dia se desgastar.
  • A sua preferência. Quanto tempo de recuperação você aceita, como encara abrir o peito, o que é importante na sua vida. A diretriz fala em decisão compartilhada, e é isso mesmo: você participa.

E quando ainda não há sintomas?

Outra novidade do resumo divulgado diz respeito à estenose aórtica importante, de alto gradiente, sem sintomas e em pessoas de baixo risco cirúrgico. A diretriz admite que a intervenção antecipada possa ser considerada, mas com recomendação fraca. Isso significa que não é uma indicação de rotina para todo mundo sem sintomas: não há benefício consistente comprovado na sobrevida, e a discussão deve ser feita pelo Heart Team, levando em conta exames que mostram se o coração já está sofrendo.

Na prática, "sem sintomas" não quer dizer "sem acompanhamento". Quem tem estenose aórtica grave precisa de seguimento regular, e muitas vezes os sintomas existem, mas foram sendo contornados sem perceber, como evitar a escada ou caminhar menos.

O que um estudo recente lembra sobre a faixa dos 70 anos

Em outubro de 2026, durante o congresso da Associação Europeia de Cirurgia Cardiotorácica (EACTS), foi apresentada uma análise que ajuda a entender por que a faixa de 70 a 80 anos é cuidadosa. O estudo alemão DEDICATE comparou TAVI e cirurgia em pacientes de risco baixo a intermediário, com idade média de 75 anos, e havia mostrado vantagem da TAVI em um ano. Pesquisadores holandeses colocaram esses resultados ao lado de um grande registro de cirurgias feitas na prática do dia a dia.

O que apareceu: a vantagem da TAVI em mortalidade se manteve, mas menor do que no estudo original, e a diferença no conjunto de AVC e morte não se repetiu. Os próprios autores explicam que há limites nessa comparação, e os investigadores do DEDICATE lembram que o desfecho principal de eficácia só será conhecido com cinco anos de acompanhamento. Os autores consideram que a faixa entre 70 e 75 anos segue como zona cinzenta, em que a decisão compartilhada com o Heart Team é o caminho.

Ou seja: os estudos ainda estão em andamento, e é justamente por isso que a diretriz não diz "a partir de tal idade, sempre TAVI".

Outras válvulas: um resumo rápido

A diretriz também trata de outras situações. Pelo resumo divulgado, a TAVI pode ser considerada, em casos selecionados, na insuficiência aórtica (a válvula que vaza) quando a cirurgia é contraindicada ou de risco proibitivo e a anatomia é favorável, com recomendação fraca. Para quem já tem uma prótese biológica degenerada e risco cirúrgico elevado, o implante de uma nova válvula dentro da antiga (valve-in-valve) tem recomendação forte. E os tratamentos por cateter das válvulas mitral e tricúspide ganharam espaço em perfis selecionados. Cada uma dessas situações merece uma conversa própria com a equipe.

Quando procurar atendimento

Falta de ar que piora, dor ou aperto no peito aos esforços e desmaio ou quase desmaio são sinais que não devem esperar. Se forem intensos ou súbitos, ligue para o SAMU 192 ou procure o pronto-socorro mais próximo. Fora da urgência, leve seus exames, em especial o ecocardiograma, para uma consulta com o cardiologista.

Em resumo

A nova Diretriz Brasileira de Valvopatias organiza a conversa: cirurgia preferida antes dos 70 anos, as duas opções entre 70 e 80, TAVI preferida acima dos 80, tudo em pacientes de baixo risco cirúrgico. Mas a regra é um mapa, não o caminho inteiro. Anatomia, fragilidade, outras doenças, durabilidade da prótese e a sua vontade entram na conta, e quem faz essa conta é o Heart Team junto com você.